O olhar psicanalítico voltado para a toxicomania advém de anos de estudo e avanços. As substâncias tóxicas e alucinógenas estão presentes na nossa humanidade desde os primórdios, historicamente falando. Há indícios antigos de que os aborígenes do Timor tentavam ter a sensação de embriaguez mascando nozes de bétele. Entre outras revelações históricas, essas substâncias foram sendo modificadas ao decorrer das épocas. Sabemos, portanto, que desde o século passado, esse uso tomou proporções exorbitantes e de níveis considerados de perigo para a sociedade e a sua organização. Devido a isso, houve a necessidade da criação de leis e outros programas para reforçar o combate dos seus usos ilícitos.

Estudiosos no campo psicanalítico postulam a toxicomania como o anúncio de uma relação formada entre o sujeito e o objeto, algo determinado impossível de ser rompido. Nesta relação, as configurações normais mudam, onde é reformulada para com um objeto principal associando-o a droga. Portanto, quando questionado sobre a drogadição, é sumariamente necessário que seja feito uma reflexão sobre o processo percorrido para a formação do eu.

Relação da psicanálise com o tratamento da dependência química

A psicanálise tem por objetivo identificar pontos específicos que marquem uma configuração no sujeito, a fim de compreender as possíveis encadeações e a origem de tal dependência. São eles:

  • Primeiramente, gerar um perfil de dependentes químicos;
  • Descobrir os eventos de importância relativa na vida destes pacientes, os quais tiveram participação na sua precipitação às drogas;
  • Distinguir as diferenciações do seu comportamento diante de situações adversas;
  • Descobrir as situações com significados dolorosos para o paciente, de acordo com a sua própria visão;
  • Caracterizar as relações existentes entre o dependente e os seus familiares e pessoas mais próximas.

Considera-se a drogadição como uma doença psicossocial que envolve inúmeros fatores particulares, sociais e familiares. A sociedade tem a capacidade de induzir o indivíduo a consumir drogas quando reforça, em alguns casos, a sua inutilidade quanto ser vivo, ser humano. Cada sociedade tem a sua parcela de produção de disfunções que, em decorrência da modernidade e uma combinação de avanços de processos e descobertas de catálogos diferentes de substâncias mais potentes, uma sociedade que determina, cada vez mais, a insuficiência dos limites em suas diversas ramificações é o quadro ideal para o aumento de dependentes químicos. Entendemos, portanto, que os ambientes externos e sociais se articulam diretamente com o nosso campo psíquico, onde exerce influência real sobre nós e os nossos desejos – atos.

Com relação à dependência química, a disfunção existente é concebida em decorrência da prolongação na relação com o objeto, ou seja, quando o contato com a substância ocorre por tempo estirado e de forma exclusiva. Sendo assim, a função do objeto em questão é negar a ausência de algo, o qual não queremos ter associação e renegá-lo como não existente. Ao passar do tempo, essa relação com o objeto alcança espaço amplo e importante na vida do dependente, marcando assim a sua sujeição. Geralmente, essa dependência é justificada pela busca incessante de algo para preencher nosso próprio vazio, as nossas deficiências e incapacidade, e se confunde, muitas vezes, com o nosso desejo de esquecê-los.

Não há, portanto, um tratamento ideal para a dependência química, o que existe são procedimentos que tem mais eficácia com estes pacientes, de acordo com cada individualidade que os mesmos possuem. Com a dificuldade de interesse no tratamento por parte do dependente, é essencial que os seus familiares e pessoas próximas tenham de prontidão a possibilidade do mesmo, para assim, garantir que o ocorra a partir do surgimento de motivação do paciente. O processo é longo e abrange todas as fases e acontecimentos da vida do indivíduo, a fim de compreender quais fatores o levaram a recorrer a essas substâncias e descobrir a busca que o mesmo realizava com o uso.

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